quarta-feira, 28 de março de 2012


O USO APROPRIADO
DA BÍBLIA
A. W. Tozer
Gabar-se de que a Bíblia é o livro
mais vendido do mundo fica sem
sentido quando se entende o caráter e o
propósito da Bíblia.
O que conta não é o número de
Bíblias vendidas, nem mesmo quantas
pessoas a lêem; o que importa é quantos
de fato crêem naquilo que estão lendo e
se rendem em fé para viver pela verdade.
Menos que isso, e a Bíblia não tem
nenhum valor real a qualquer de nós.
Muito se diz, e corretamente,
sobre a superioridade da Bíblia como
literatura. São tão belas as palavras de
profeta e salmista, como também as de
nosso Senhor e de Seus apóstolos, que
dificilmente podem ser feitas menos que
belas, até mesmo pelo pior tradutor.
Qualquer palavra de louvor à beleza da
Versão Autorizada (aquela que
usualmente se escolhe para ler “como
literatura”) seria enfeitar artificialmente o
que já é belo ou acender uma vela ao sol,
por isso paro aqui mesmo. Mas estudar
as Escrituras unicamente por sua beleza
literária é perder completamente o
propósito para o qual foram escritas.
A Bíblia surgiu pela emergência
moral ocasionada pela queda do homem.
Ela é a voz de Deus chamando para casa
o homem que está no deserto do
pecado, ela é um mapa que orienta os
pródigos que estão voltando; ela é
instrução em justiça, luz nas trevas,
informação sobre Deus e o homem e a
vida e a morte e o céu e o inferno. Nela
Deus adverte, ordena, repreende,
promete, encoraja. Nela Deus oferece
salvação e vida através do Seu Filho
Eterno. E o destino de cada um depende
da resposta que dá à voz da Palavra.
Pelo fato de a Bíblia ser a espécie
de livro que ela é, não é possível
aproximar-se dela sem envolver-se, com
o simples objetivo de avaliá-la. “Ó terra,
terra, terra! Ouve a palavra do Senhor!” A
Palavra de Deus não é para ser apreciada
como alguém poderia apreciar uma
sinfonia de Beethoven ou um poema de
Wordsworth. Ela demanda imediata
ação, fé, submissão, execução. Até que
isso seja assegurado, ela não fez nada
benéfico para o leitor, mas apenas
aumentou a responsabilidade dele e
aprofundou o julgamento que há de vir.
Não há como descobrir com
segurança quantas Bíblias, dos milhões
comprados nos últimos anos, têm sido
lidas. Mas há uma forma segura de
descobrir quantos leitores estão
obedecendo ao que lêem. O total
compromisso ao seu ensino por parte de
algumas centenas de pessoas, em
qualquer parte do mundo, operaria uma
revolução moral que afetaria para o bem
toda e qualquer faceta da vida moderna.
Uma vez que nenhuma revolução dessa
espécie tem ocorrido, só podemos
concluir que o Best Seller não está sendo
lido, ou pelo menos não está recebendo
a obediência devida.
Em tempos de desastre como
num terremoto ou numa enchente, as
informações de primeiros-socorros e as
instruções das autoridades médicas
muitas vezes são questão de vida ou
morte. O que pensaríamos de um
homem, se o encontrássemos lendo esse
material apenas por sua beleza literária?

Ele poderia sentir arrepios estéticos com
a resumida e concisa linguagem, e ainda
morrer de febre tifóide, porque a vida
dele depende não de admirar as palavras
das instruções oficiais, mas da sua
obediência a elas.
Por mais ridícula que uma
conduta dessas possa parecer, contudo
algo semelhante é praticado
constantemente numa esfera onde as
conseqüências são infinitamente mais
severas. Homens que têm apenas um
momento para se preparar para o mundo
eterno lêem o único livro que pode lhes
dizer como fazê-lo – não para aprender
como se preparar, mas só para apreciar a
beleza literária do livro. Somente a
cegueira do coração provocada pelo
pecado pode fazer com que os homens
procedam assim.
Em anos recentes, a Bíblia tem
sido recomendada para muitos outros
propósitos diferentes do único para o
qual ela foi escrita. Os movimentos de
paz mental, por exemplo, manejam de tal
forma a encontrar nela óleo para as
atribuladas águas da alma, mas para fazer
isso funcionar eles têm, literalmente, de
selecionar, escolher, compreender mal e
usar de modo errado à vontade.
Contudo a Bíblia, quando lida honesta e
responsavelmente, produz paz mental,
mas somente depois de primeiro
conduzir o coração a um
arrependimento que freqüentemente é
qualquer coisa menos tranqüilo. Quando
a vida inteira é transformada moralmente
e o coração purificado do pecado, então
aquele que busca pode conhecer
verdadeira e legítima paz. Qualquer
manipulação das Escrituras para que
falem de paz ao homem natural é
diabólica e somente conduz à ruína.
Encontrei, certa vez, nas regiões
montanhosas do sul dos Estados
Unidos, algumas pessoas que usavam
certas passagens obscuras de Ezequiel
como encantamento para estancar
sangue após algum acidente. A Bíblia
também tem sido usada como livro-texto
de vendedores, e alguns de nós se
recordam que, durante a depressão de
1930, alguns líderes confusos sugeriram
que seria útil adotar as estratégias
econômicas de José no Egito para
ajudar-nos a sair do buraco.
Alguns anos atrás, era bastante
comum mestres de Bíblia alegar que
encontravam nas Escrituras confirmação
de praticamente cada nova descoberta
feita pela ciência. Aparentemente,
ninguém se dava conta de que o cientista
tinha de encontrá-la antes que o mestre
de Bíblia pudesse fazê-lo, e parece que
nunca ocorreu a ninguém perguntar por
quê, se isso estava ali na Bíblia de forma
tão simples, demorou alguns milhares de
anos e demandou a ajuda da ciência para
que alguém pudesse vê-lo.
Ora, eu creio que tudo o que está
na Bíblia é verdade, mas procurar fazer
dela o livro-texto da ciência é
compreendê-la mal de forma completa e
tragicamente. O propósito da Bíblia é
trazer homens a Cristo, torná-los santos
e prepará-los para o céu. Nisso ela é
única entre os livros, e ela sempre
cumpre o seu propósito quando é lida
com fé e obediência.
—Set of the Sail, The